Em 1968, ainda estudante, abri meu primeiro escritório de arquitetura, junto com alguns amigos, na Rua Augusta. Ficava em um prédio comercial de 7 pavimentos, com 14 salas, situado próximo à travessia da Rua Matias Aires, no trecho entre a Avenida Paulista e a Praça Roosevelt. Era ocupado por outros jovens arquitetos, que ali iniciavam a carreira.
Este lado da Augusta não era o mais badalado, o chique na época, mas era muito freqüentado porque lá ficavam os cinemas da região, como o Regência, o Majestic e um terceiro cujo nome não me recordo. Ao seu lado alguns bares e restaurantes entremeados por lojas comerciais. Ponto alto da paquera, que se estendia por toda a extensão da rua, congestionando a região nas tardes e noites nos finais de semana.
Passando a Avenida Paulista, no outro lado da Rua Augusta, a partir do Conjunto Nacional, ficava o comércio de alto padrão da época, com as mais famosas lojas de tecidos, roupas, sapatarias, discos, bares com hot-dogs vendidos como os principais sanduíches.
Na época do Natal, este trecho da Augusta era totalmente decorado, chegando, em um dos Natais, a ter o chão totalmente forrado com carpete, a rua coberta com tecido e com iluminação especial para criar ambientação para desfiles de moda. Isto era a década de 60 e inicio dos anos 70.
Esta Rua Augusta, que ditava a moda lembrava um pouco a Rua Augusta de Lisboa, que vai da Praça do Comércio até o Largo do Rossio, com lojas importantes ao longo do calçadão, embora a portuguesa seja mais larga.
Aí, em São Paulo, abre o Shopping Center Iguatemi, o primeiro centro de compras da cidade e do país, que demorou a oferecer concorrência, pois era uma novidade ainda distante – dependia do automóvel para la chegar. Nos anos seguintes, as novas lojas do Shopping começaram a concorrer com o comércio da Augusta, levando algumas lojas a migrar para o Shopping. O brilho da Rua começou a ser apagado.
A Rua Augusta atual pouca semelhança guarda com a dos anos 60, hoje com comercio fraco, mantendo alguma lembrança como as lojas Hasson e Casa, remanescentes da época, algumas livrarias que sobrevivem, o Teatro Procópio Ferreira e os cinemas do Unibanco. Este talvez possa ser um novo perfil a ser cultivado para a rua – centro cultural, centro das artes, etc.
Lembro-me de ter conhecido a Rua Augusta nos anos 50, quando ainda era revestida com paralelepípedos e por onde ainda passavam os bondes. Meu bisavô morava em uma casa na esquina das ruas Fernando de Albuquerque e Bela Cintra, há dois quarteirões da Augusta. A casa com detalhes no estilo “art nouveau” foi vendida após sua morte, dando lugar a um posto de gasolina.
Esta Rua Augusta era ocupada por pequenas casas residenciais já entremeadas por algum pequeno comércio e os cinemas de bairro ainda não famosos. Era uma rua comum, estreita, com calçadas estreitas e escuras à noite, pois a iluminação era muito fraca. Passava bonde.
Um amigo historiador conta que, originalmente, no principio do século XX, a Rua foi chamada Maria Augusta em homenagem à primeira mulher a entrar na Faculdade de Direito do largo São Francisco, em 1898, Maria Augusta Saraiva: “A tal rua acabou perdendo o “Maria” (e o “Saraiva” que nunca carregou), ficando somente com a segunda parte, “Augusta”, que significa “sublime”, “majestosa”, “grandiosa””, explica Venceslau Alves, que emenda “será um boato?”.
A Rua Augusta era o caminho por onde passavam as “jardineiras” que iam até as Chácaras do Itaim e à Vila Olímpia, então um charco.
Logo vieram os bondes elétricos que subiam a rua, cruzando a Avenida Paulista e descendo em direção ao Rio Pinheiros até o local onde hoje a Rua Gumercindo Saraiva sai da atual Avenida Europa, prolongamento natural da Rua Augusta, que vai tomando outros nomes como Rua Colômbia e Avenida Europa. Neste local, reconhecido hoje pela presença dos restaurantes Bolinha e Pandoro, os bondes faziam a volta usando o alargamento da rua para retornar ao Centro. A cidade acabava ali. Antigos sócios do centenário Clube Pinheiros, na época Clube Germânia, iam a pé do ponto final do bonde até o clube, situado às margens do Rio, então com traçado irregular.
Voltando ao presente, os lojistas e moradores da Rua Augusta querem trazer o antigo brilho. Assim, ajudados pela SAMORCC – Sociedade dos Amigos e Moradores de Cerqueira Cesar, estão procurando recuperar a importância da rua com sua revitalização, cujo primeiro passo foi consertar as calçadas, promovida pela Prefeitura com o uso blocos de concreto, dando uma uniformizada em todo seu percurso, acabando com a parafernália de tipos de piso, degraus, escadas e buracos, muitos buracos, que acompanhavam os passeios. O material não é o ideal, mas melhorou bastante.
Mas a revitalização da Rua Augusta não pode acabar aí. É preciso continuar com a arborização da rua, a troca dos postes e a melhoria da iluminação, que a Prefeitura não quis fazer e nem discutir. O mobiliário urbano também precisa ser uniformizado, padronizado e estrategicamente situado. Falta “design” ao mobiliário. Atrás disto, espera-se que os lojistas melhorem suas lojas, criem um padrão de arquitetura melhor, com fachadas bonitas e limpas, seguindo a legislação municipal que despoluiu a aparência da cidade.
Quem sabe, conseguir retirar a circulação das linhas de ônibus que percorrem a rua em toda sua extensão, um corredor urbano que não favorece o desenvolvimento comercial e cultural da Rua Augusta, hoje apenas uma passagem. Mas isto depende de um estudo mais amplo envolvendo o sistema de transporte público da cidade.
Assim deve ser a busca continuada da melhoria de nossa cidade, que pode dar um importante retorno na qualidade de vida de todos.