A cidade de Lima, no Peru, é conhecida por não ter chuva. Por isto casas e prédios não precisam de telhados, que são substituídos por terraços nas coberturas.
Lá não chove ou raramente chove. Às vezes chuvisca levemente. Não existem enxurradas e alagamentos. Lá não existem bueiros, galerias de águas pluviais e outros dispositivos próprios para a coleta das águas das chuvas.
A Rua Augusta da cidade de São Paulo apresenta características semelhantes às das ruas de Lima, sem galerias para coleta de águas pluviais e com calçadas feitas de blocos articulados de concreto assentados sobre camada de areia. Os bueiros existentes são apenas de fantasia, criados para evitar que as águas cruzem as pistas das ruas transversais. Não existe uma galeria de águas pluviais.
Acontece que na Rua Augusta chove, chove muito, como no final da semana passada. Mas a Augusta não está preparada para chuvas. As águas descem pelas sarjetas, subindo nas calçadas, engrossando o caudal, levando tudo que está pela frente, inclusive o novo piso de blocos articulados de concreto.
Antes da execução da obra, a SAMORCC (Sociedade dos Amigos e Moradores de Cerqueira César), conduzida pela guerreira Dra. Célia Marcondes, batalhou junto à comunidade para conseguir melhorar as calçadas, início de um plano mais arrojado de revitalizar a antiga fama da Rua Augusta. Seria alcançar a utopia da Rua Augusta com calçadas de primeiro mundo, com um piso de placas pré-moldadas de concreto, nova iluminação pública, palmeiras iluminadas, mobiliário urbano especial e fachadas das lojas reformadas de acordo com um esquema planejado.
Mas para isto tudo é preciso dinheiro, que poderia ser coletado com os ocupantes da rua, comerciantes e moradores, e com patrocinadores que seriam procurados pela SAMORCC.
A Prefeitura do Município de São Paulo aceitou a tarefa de refazer as calçadas, às suas expensas, sem ônus para os ocupantes da Rua.
Ótimo. Mas com o uso do material estocado por ela, ou seja, blocos articulados de concreto para serem assentados sobre camada de areia.
A SAMORCC alertou aos técnicos da Prefeitura sobre os problemas do assentamento sobre areia, devido à inclinação da rua, cujas águas das chuvas levariam a areia embora, soltando os blocos, afundando os pisos, criando buracos.
Mas, a Prefeitura, alheia a tudo isto, pois está acima de todos, contratou construtoras para executar as calçadas segundo sua especificação de assentamento, errada, mostrando todo o descaso técnico com que trata os problemas urbanos, com total despreparo.
As construtoras seguiram a especificação e deu no que se esperava: no final da semana passada a obra, que está pela metade da extensão da rua, não passou pela primeira chuva. As calçadas rolaram junto com a água e ficaram totalmente estragadas.
Hoje a Prefeitura está refazendo as calçadas, mas usando o mesmo processo inadequado de assentamento sobre camada de areia.
A Prefeitura não aprende.
E nós contribuintes pagamos a conta para fazer e refazer uma obra errada.
De fato, as calçadas da Rua Augusta são peruanas, próprias para a cidade de Lima e impróprias para São Paulo.