No início da década de setenta, um jovem arquiteto muito idealista, acreditando ser a arquitetura a coisa mais importante do mundo, que ajudaria a melhorar a vida das pessoas, foi trabalhar em uma grande empresa de engenharia brasileira.
Lá encontrou uma equipe muito grande de pessoas, que trabalhavam bastante e que também queriam melhorar o mundo, que acreditavam poder levar o Brasil a um lugar de destaque. Vivia-se a época do “milagre brasileiro”.
Este “milagre” existiu mesmo, não pelas distorções das informações econômicas fornecidas à população, mas muito mais pela perspectiva de vida que abria para muitos de nós e para um país que finalmente iria ser grande. Trabalhava-se com vontade, procurando novos materiais, novas técnicas de trabalho e de construção. Foi um momento mágico.
No início da década de oitenta, a realidade chegou ao país, trazida pela primeira grande crise do petróleo, determinada pelos grandes produtores, que descobriram que poderiam ganhar mais dinheiro se aumentassem os preços do petróleo e reduzissem sua produção.
O Brasil, despreparado, dependente do petróleo importado, quebrou. E junto com o país, toda uma geração de pessoas que trabalhavam porque acreditavam que seria possível alcançar os países do primeiro mundo com a melhoria do padrão de vida da população.
Esta data marcou o início do fim das empresas de projeto, cujo produto, até então valorizado por uma perspectiva de progresso, começou a perder seu valor.
O poder mudou de mãos, passando dos planejadores para os executores.
A partir desta data, as construtoras foram tomando consciência do poder que detinham dado pela quantidade de dinheiro que manuseavam, sempre muito maior do que a quantidade de dinheiro do custo de um projeto. E assim, as construtoras passaram a mandar no mercado de projetos de arquitetura e de engenharia.
Os projetos passaram a serem tratados como um produto necessário para o ganho de vida dos construtores. Projeto passou a ser um “mal necessário”.
Coincidentemente, na mesma época, apareceram os computadores pessoais, os “pc’s”, que iriam popularizar o uso da informática em todas as áreas, agilizando o trabalho e alterando profundamente o mercado de trabalho.
Os computadores passaram a ser vistos como facilitadores do trabalho de todos, inclusive de arquitetos e engenheiros, colocando em segundo lugar o conhecimento e o talento das pessoas que trabalhavam em projeto.
Qualquer um com um computador poderia fazer projeto.
Assim, juntando esta “verdade” ao poder das construtoras, os arquitetos e os engenheiros que acreditaram poder mudar o Brasil com seus projetos passaram a lutar para sobreviver, num país cada vez mais empobrecido de mentes criadoras.
Aquela grande empresa brasileira de engenharia, que me referi no inicio, fechou as portas em 2003.