Em 1981, conheci o engenheiro português Edgar Cardoso, em Lisboa, por ocasião dos trabalhos do projeto de ampliação do Aeroporto do Funchal, na Ilha da Madeira. Lá estava eu, arquiteto da empresa brasileira Hidroservice Engenharia, associada ao Prof. Cardoso neste projeto, que concluímos em 1985.
O Aeroporto, que foi construído e inaugurado no ano 2000, é parte de nosso trabalho, atualizado por outros, mas mantendo as características gerais planejadas.
Conheci um pouco de sua forte personalidade em discussões acaloradas no andamento dos trabalhos.
Tive a oportunidade de conhecer também um pouco de sua obra, contada por ele, por seus desenhos a lápis, que espelhavam a importância da sensibilidade para o conhecimento do local do projeto, no principio do trabalho, com a reprodução da paisagem local com grafite que, possivelmente, iria inspirá-lo na criação. Era o verdadeiro arquiteto de suas obras.
Não gostava de trabalhar com arquitetos porque isto o impedia de criar livremente. Tanto isto é verdade, que poucas estruturas de edifícios foram projetados em seu gabinete.
Ficou conhecido pelos projetos de pontes, onde podia fazer uso de toda sua criatividade sem interferências.
Inventor do método de cálculo experimental de estruturas, que permite a comparação dos resultados de ensaios em modelos com as estruturas de concreto reais, com o uso de um computador, também inventou uma máquina fotográfica para fotos de 360 graus, criada por sua genialidade em 1948.
O Prof. Edgar Cardoso foi um gênio, e como toda pessoa genial, de difícil trato.
Faleceu em 5 de julho de 2000, dois meses antes da inauguração da nova pista do Aeroporto do Funchal, projetada por ele. Curioso!
Em 1968, ainda estudante, abri meu primeiro escritório de arquitetura, junto com alguns amigos, na Rua Augusta. Ficava em um prédio comercial de 7 pavimentos, com 14 salas, situado próximo à travessia da Rua Matias Aires, no trecho entre a Avenida Paulista e a Praça Roosevelt. Era ocupado por outros jovens arquitetos, que ali iniciavam a carreira.
Este lado da Augusta não era o mais badalado, o chique na época, mas era muito freqüentado porque lá ficavam os cinemas da região, como o Regência, o Majestic e um terceiro cujo nome não me recordo. Ao seu lado alguns bares e restaurantes entremeados por lojas comerciais. Ponto alto da paquera, que se estendia por toda a extensão da rua, congestionando a região nas tardes e noites nos finais de semana.
Passando a Avenida Paulista, no outro lado da Rua Augusta, a partir do Conjunto Nacional, ficava o comércio de alto padrão da época, com as mais famosas lojas de tecidos, roupas, sapatarias, discos, bares com hot-dogs vendidos como os principais sanduíches.
Na época do Natal, este trecho da Augusta era totalmente decorado, chegando, em um dos Natais, a ter o chão totalmente forrado com carpete, a rua coberta com tecido e com iluminação especial para criar ambientação para desfiles de moda. Isto era a década de 60 e inicio dos anos 70.
Esta Rua Augusta, que ditava a moda lembrava um pouco a Rua Augusta de Lisboa, que vai da Praça do Comércio até o Largo do Rossio, com lojas importantes ao longo do calçadão, embora a portuguesa seja mais larga.
Aí, em São Paulo, abre o Shopping Center Iguatemi, o primeiro centro de compras da cidade e do país, que demorou a oferecer concorrência, pois era uma novidade ainda distante – dependia do automóvel para La chegar. Nos anos seguintes, as novas lojas do Shopping começaram a concorrer com o comércio da Augusta, levando algumas lojas a migrar para o Shopping. O brilho da Rua começou a ser apagado.
A Rua Augusta atual pouca semelhança guarda com a dos anos 60, hoje com comercio fraco, mantendo alguma lembrança como as lojas Hasson e Casa, remanescentes da época, algumas livrarias que sobrevivem, o Teatro Procópio Ferreira e os cinemas do Unibanco. Este talvez possa ser um novo perfil a ser cultivado para a rua – centro cultural, centro das artes, etc.
Lembro-me de ter conhecido a Rua Augusta nos anos 50, quando ainda era coberta por paralelepípedos e por onde ainda passavam os bondes. Meu bisavô morava em uma casa na esquina das ruas Fernando de Albuquerque e Bela Cintra, há dois quarteirões da Augusta. A casa com detalhes no estilo “art nouveau” foi vendida após sua morte, dando lugar a um posto de gasolina.
Esta Rua Augusta era ocupada por pequenas casas residenciais já entremeadas por algum pequeno comércio e os cinemas de bairro ainda não famosos. Era uma rua comum, estreita, com calçadas estreitas e escuras à noite, pois a iluminação era muito fraca. Passava bonde.
Um amigo historiador conta que, originalmente, no principio do século XX, a Rua foi chamada Maria Augusta em homenagem à primeira mulher a entrar na Faculdade de Direito do largo São Francisco, em 1898, Maria Augusta Saraiva: “A tal rua acabou perdendo o "Maria" (e o "Saraiva" que nunca carregou), ficando somente com a segunda parte, "Augusta", que significa "sublime", "majestosa", "grandiosa"”, explica Venceslau Alves, que emenda “será um boato?”.
A Rua Augusta era o caminho por onde passavam as “jardineiras” que iam até as Chácaras do Itaim e à Vila Olímpia, então um charco.
Logo vieram os bondes elétricos que subiam a rua, cruzando a Avenida Paulista e descendo em direção ao Rio Pinheiros até o local onde hoje a Rua Gumercindo Saraiva sai da atual Avenida Europa, prolongamento natural da Rua Augusta, que vai tomando outros nomes como Rua Colômbia e Avenida Europa. Neste local, reconhecido hoje pela presença dos restaurantes Bolinha e Pandoro, os bondes faziam a volta usando o alargamento da rua para retornar ao Centro. A cidade acabava ali. Antigos sócios do centenário Clube Pinheiros, na época Clube Germânia, iam a pé do ponto final do bonde até o clube, situado às margens do Rio, então com traçado irregular.
Voltando ao presente, os lojistas e moradores da Rua Augusta querem trazer o antigo brilho. Assim, ajudados pela SAMORCC – Sociedade dos Amigos e Moradores de Cerqueira Cesar, estão procurando recuperar a importância da rua com sua revitalização, cujo primeiro passo foi consertar as calçadas, promovida pela Prefeitura com o uso blocos de concreto, dando uma uniformizada em todo seu percurso, acabando com a parafernália de tipos de piso, degraus, escadas e buracos, muitos buracos, que acompanhavam os passeios. O material não é o ideal, mas melhorou bastante.
Mas a revitalização da Rua Augusta não pode acabar aí. É preciso continuar com a arborização da rua, a troca dos postes e a melhoria da iluminação, que a Prefeitura não quis fazer e nem discutir. O mobiliário urbano também precisa ser uniformizado, padronizado e estrategicamente situado. Falta “design” ao mobiliário. Atrás disto, espera-se que os lojistas melhorem suas lojas, criem um padrão de arquitetura melhor, com fachadas bonitas e limpas, seguindo a legislação municipal que despoluiu a aparência da cidade.
Quem sabe, conseguir retirar a circulação das linhas de ônibus que percorrem a rua em toda sua extensão, um corredor urbano que não favorece o desenvolvimento comercial e cultural da Rua Augusta, hoje apenas uma passagem. Mas isto depende de um estudo mais amplo envolvendo o sistema de transporte público da cidade.
Assim deve ser a busca continuada da melhoria de nossa cidade, que pode dar um importante retorno na qualidade de vida de todos.
O trânsito da cidade de São Paulo está caótico, como todos sabem.
Fala-se em criar novas restrições ao tráfego de automóveis e de caminhões na cidade.
Especulam-se idéias como aumentar os dias de rodízio de automóveis, aumentar o horário do rodízio, proibir a circulação dos veículos de grande porte (caminhões) em novas partes da cidade, criar horários noturnos para sua circulação/carga/descarga, fatos estes que iriam criar novos constrangimentos para a vida dos habitantes da cidade.
Levanto a questão de que a culpa dos problemas de trânsito, ou parte dela, seja da desarticulação do transporte público de passageiros feito por ônibus e Metrô.
A cidade de São Paulo sempre teve e continua tendo um sistema de transporte urbano público de passageiros estranho, isto sem falar na baixa qualidade dos meios de transporte.
Estranho porque as linhas de ônibus caminham acompanhando as linhas ferroviárias do Metrô, tanto aquelas que estão subterrâneas como as que estão elevadas ou mesmo no nível do terreno, como na zona leste.
O que sempre me chamou a atenção, foram as longas filas dos ônibus que percorrem a Avenida Paulista, na maior parte do tempo vazios, passando sobre a Linha 2 (verde) do Metrô. Embora em faixa de trânsito exclusiva, estes ônibus atrapalham o tráfego local com a formação de extensas filas, verdadeiros trens de ônibus, ou melhor, comboios como preferem os portugueses.
Do mesmo modo, existem linhas de ônibus acompanhando a Linha 1 (azul), que percorrem as avenidas Jabaquara, Domingos de Moraes, Vergueiro, Liberdade, Anhangabaú e Tiradentes, onde o Metrô é subterrâneo e a Avenida Cruzeira do Sul com o Metrô elevado.
Também na Linha 3 (vermelha) isto ocorre, assim como na curta Linha 5 (lilás) que vai de Santo Amaro até o Capão Redondo.
O sistema de Metrô deveria ter capacidade para suportar toda a demanda de passageiros da região, sem a necessidade de um suplemento de linhas de ônibus acompanhando suas linhas.
Por que as linhas de ônibus não são planejadas e arranjadas na malha urbana cruzando as linhas ferroviárias de Metrô e da CPTM, trazendo e levando passageiros, em vez de acompanhá-las, criando uma concorrência de serviço público desnecessária?
As linhas de ônibus deveriam cruzar as linhas do Metrô, e também as linhas de trens urbanos da CPTM, junto às estações, levando e trazendo passageiros para os sistemas ferroviários, para depois irem se afastando para a distribuição local dos passageiros, para não criar a concentração de veículos que gera o congestionamento do trânsito. Não sei se Isto seria o ideal, mas que melhoraria o tráfego de veículos e o transporte de passageiros, melhoraria.
Faço esta sugestão aos senhores técnicos de transporte e de tráfego da cidade de São Paulo. Com a palavra a SPTRANS e a CET, empresas municipais de planejamento e gerenciamento de transporte e de tráfego.


